{"id":1452,"date":"2022-08-30T11:10:13","date_gmt":"2022-08-30T14:10:13","guid":{"rendered":"https:\/\/romulofelippe.com\/?p=1452"},"modified":"2022-08-30T11:18:31","modified_gmt":"2022-08-30T14:18:31","slug":"romulo-fica-conhecido-como-o-academico-do-centenario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/romulofelippe.com\/?p=1452","title":{"rendered":"Romulo fica conhecido como \u201co acad\u00eamico do Centen\u00e1rio\u201d"},"content":{"rendered":"<p><strong>DISCURSO DE BOAS-VINDAS AO ACAD\u00caMICO ROMULO FELIPPE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Anaximandro Oliveira Santos Amorim, <\/em><\/strong><strong><em>advogado, professor e escritor<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Existe, na rua 25 de mar\u00e7o, na cidade de Cachoeiro de Itapemirim, sul do Esp\u00edrito Santo, um belo im\u00f3vel, de n\u00famero 166. Uma casa em estilo ecl\u00e9tico, sem afastamento, pintada na cor verde, cuja entrada se faz por um p\u00f3rtico. Uma linda escadaria chega at\u00e9 uma varanda suspensa, ornada por bala\u00fastres que tamb\u00e9m fazem a composi\u00e7\u00e3o arquitet\u00f4nica dos muros do im\u00f3vel. A constru\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9, por si s\u00f3, um agrad\u00e1vel espet\u00e1culo ao olhar. Mas, al\u00e9m do seu valor hist\u00f3rico, ela guarda um outro, de cunho cultural: foi ali que dois expoentes da literatura, os irm\u00e3os Newton e Rubem, passaram inf\u00e2ncia e parte da juventude, sendo Rubem, indubitavelmente, o mais ilustre habitante do im\u00f3vel, de tal arte que muita gente se refere \u00e0 constru\u00e7\u00e3o, chamada, oficialmente, &#8220;Casa dos Braga&#8221;, como &#8220;Casa do Rubem Braga&#8221;.<\/p>\n<p>Eu estive l\u00e1, em 2018, quando relancei um livro na 7\u00aa Bienal da cidade, levado pelas m\u00e3os de duas amigas, conterr\u00e2neas de Rubem: Claudia Sabbadini e Maria Elvira Tavares Costa, esta \u00faltima que, com seu jeito e voz doce, \u00e9 a aguerrida guardi\u00e3 da hist\u00f3ria dos Bragas! E por entre salas e quartos grandes e pequenos, fiquei encantado com os m\u00f3veis, com os quadros, com a intimidade daquela fam\u00edlia; h\u00e1, ali, uma est\u00e1tua em tamanho natural do velho Rubem, que o traz redivivo; e uma rel\u00edquia, em espec\u00edfico, que chamou sobremaneira a minha aten\u00e7\u00e3o: a m\u00e1quina de escrever do cronista.<\/p>\n<p>Se tanta hist\u00f3ria, tanta literatura deixou-me, um simples visitante, t\u00e3o arrebatado, imagino o que seria tudo aquilo para um garoto, vizinho daquela casa, ao lado da qual passava, todos os dias? Seu nome: Romulo Felippe.<\/p>\n<p>Filippe nasceu na terra de Rubem Braga, em 1974. Vindo de uma fam\u00edlia humilde, de pai taxista e m\u00e3e dona de casa, ca\u00e7ula dos homens, em uma fam\u00edlia de cinco irm\u00e3os, o jovem, que morava a 500 metros do casar\u00e3o dos Bragas, afirma que foi Rubem o seu maior incentivador. N\u00e3o havia biblioteca em casa, nem o h\u00e1bito da leitura era t\u00e3o arraigado, mas havia o amor e o incentivo dos pais, de um lado, e a sombra do casar\u00e3o, do outro. E, nestas inexplic\u00e1veis conex\u00f5es com Deus, o Acaso, o Destino, as Musas ou quem queira, essa f\u00f3rmula foi a mola propulsora para o \u00e1vido leitor que, mais tarde, tornar-se-ia o escritor.<\/p>\n<p>O interesse pelas letras come\u00e7a, portanto, bem cedo: o garoto Romulo come\u00e7a a devorar hist\u00f3rias em quadrinhos, geralmente, aventuras, como as do Conan; ao mesmo tempo, seu imagin\u00e1rio \u00e9 estimulado pelas adapta\u00e7\u00f5es desses her\u00f3is para o cinema de Hollywood: Conan, Gladiador, Robin Hood, Braveheart&#8230; Todo esse caldeir\u00e3o forjaria o escritor apaixonado por aventuras medievais, autor de textos precisos, imag\u00e9ticos. Ele estava em uma verdadeira ebuli\u00e7\u00e3o: lia um livro por dia, sem se descuidar dos can\u00f4nicos. Rubem Braga e Manoel Bandeira est\u00e3o entre os seus preferidos, o primeiro, por uma quest\u00e3o \u00f3bvia, e, o segundo, &#8220;por sua vis\u00e3o triste da morte&#8221;.<\/p>\n<p>Em nossa opini\u00e3o, por\u00e9m, o primeiro &#8220;ponto-chave&#8221; na carreira de Romulo Felippe se deu aos 11 anos: levado pelo pai, at\u00e9 a j\u00e1 extinta loja Dadalto, em sua cidade, para ganhar um presente de fim de ano, o futuro escritor preferiu, no lugar de uma bicicleta, uma m\u00e1quina de escrever Olivetti port\u00e1til. Felippe sela, com isso, o seu compromisso com a escrita e trabalha em prol da realiza\u00e7\u00e3o de um sonho: viver da palavra. E assim ele fez, datilografando historietas que ele mesmo inventava, seus &#8220;livrinhos&#8221;, que ele confeccionava \u00e0 m\u00e3o, mas que, doravante, davam \u00e0 brincadeira tons cada vez mais s\u00e9rios. Um dos t\u00edtulos \u00e9 curioso: &#8220;Sem rumo, nem remo&#8221;. Estaria o pr\u00e9-adolescente perdidamente apaixonado pelas Letras?<\/p>\n<p>Tanto amor pela palavra fez com que o jornalismo fosse um caminho natural na vida do jovem. Precoce, aos 14, j\u00e1 era contratado como estagi\u00e1rio (ou, no jarg\u00e3o jornal\u00edstico, &#8220;foca&#8221;) no jornal &#8220;O Brado&#8221;, do jornalista Jos\u00e9 Paineiras, conhecido por defender causas raciais. Antes disso, Felippe j\u00e1 publicava cr\u00f4nicas n\u00e3o apenas neste jornal, mas tamb\u00e9m no &#8220;Correio do Sul&#8221; e em &#8220;O Arauto&#8221;. O contato com a reda\u00e7\u00e3o fez com que sua escrita tomasse os contornos de hoje. Quem trabalha em jornal sabe o valor da palavra precisa, ou &#8220;le mot juste&#8221;, como diriam os franceses: &#8220;Entre duas palavras, escolha a mais simples; entre duas palavras simples, escolha a mais curta&#8221; (Paul Val\u00e9ry). Nada pode ser desperdi\u00e7ado, nada pode estar obscuro. E o tempo \u00e9 um inimigo que s\u00f3 pode ser vencido com perseveran\u00e7a e disciplina.<\/p>\n<p>O segundo &#8220;ponto-chave&#8221; na carreira de Romulo se d\u00e1 aos 18 anos de idade: durante uma viagem a trabalho a fim de cobrir a Feira do M\u00e1rmore e Granito de Verona, It\u00e1lia, o jovem aproveita uma folga de tr\u00eas dias e passa a visitar monumentos hist\u00f3ricos, encantando-se imensamente com os castelos medievais. \u00c9 da\u00ed que duas outras paix\u00f5es nascem: Hist\u00f3ria e Idade M\u00e9dia, mais precisamente, os castelos dessa \u00e9poca. O fato, que, anos mais tarde gera uma &#8220;webs\u00e9rie&#8221; chamada &#8220;Ca\u00e7adores de Castelos&#8221;, produzida para o jornal &#8220;A Gazeta&#8221;, ser\u00e1 crucial para que o futuro romancista abrace esta tem\u00e1tica, por ele dominada com maestria. Soma-se a isso, tamb\u00e9m, os romances de um autor londrino, Bernanrd Cornwell, autor de fantasias medievais.<\/p>\n<p>A carreira de Romulo, no jornalismo, \u00e9 bem sucedida: com apenas 20 anos, ele se torna Secret\u00e1rio de Comunica\u00e7\u00e3o da Prefeitura Municipal de Gua\u00e7u\u00ed, outro munic\u00edpio do sul do Estado. Torna-se editor, tamb\u00e9m bastante jovem, do jornal &#8220;O Esp\u00edrito Santo&#8221;, o que marca, para n\u00f3s, um terceiro &#8220;ponto-chave&#8221; em sua carreira: o empreendedorismo. Felippe \u00e9 uma daquelas raras almas que conseguem conciliar tino comercial com arte. E \u00e9 deste casamento perfeito que ele, depois de tantas reda\u00e7\u00f5es, dirige, com sucesso, dois ve\u00edculos, at\u00e9 hoje: a &#8220;Revista Viver!&#8221;, que circula ininterruptamente, h\u00e1 20 anos, no sul do estado e \u00e9 voltada para sa\u00fade e qualidade de vida; e a &#8220;Revista Caminh\u00f5es&#8221;, de circula\u00e7\u00e3o nacional, h\u00e1 16 anos, cujo portal, caminhoes.com, \u00e9 o maior portal de not\u00edcias deste assunto no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Estava, assim, pronto &#8211; e suficientemente maduro &#8211; o escritor.<\/p>\n<p>Romulo Felippe possui tr\u00eas livros publicados, os tr\u00eas em prosa, respectivamente: \u201cO monge guerreiro\u201d; \u201cO reino dos morcegos\u201d; e \u201cO farol e a tempestade\u201d. Todos os tr\u00eas com esmerado trabalho de pesquisa e alta qualidade gr\u00e1fica.<\/p>\n<p>A gesta\u00e7\u00e3o de \u201cO monge guerreiro\u201d vem de uns quatro anos antes de seu primeiro lan\u00e7amento, em 2016. Ap\u00f3s passar quase meia d\u00e9cada visitando castelos, o autor se debru\u00e7ou a pesquisar hist\u00f3rias locais, jornadas de cavaleiros templ\u00e1rios. O argumento para a trama, no entanto, veio de uma lac\u00f4nica nota de rodap\u00e9 de livro: constava que o Imperador Constantino havia saldado as d\u00edvidas da Fran\u00e7a por meio de rel\u00edquias. T\u00e3o pouca informa\u00e7\u00e3o foi o suficiente para que o autor elaborasse, em seu imagin\u00e1rio, quase 400 p\u00e1ginas de hist\u00f3ria, passando por um pr\u00f3logo e dez partes contendo, cada qual, uma m\u00e9dia de sete a dez cap\u00edtulos, cada um com em torno de tr\u00eas a cinco p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria gira em torno de Bastien Neville, um nobre cruzado franc\u00eas, e sua turma, a impedir Slatan Mondragone, o tem\u00edvel Rei Negro, de se apossar das rel\u00edquias sagradas. S\u00e3o uma centena de personagens, em uma trama din\u00e2mica, que mistura amor, guerra, drama, em praticamente toda a Europa e Terra Santa.<\/p>\n<p>O livro foi lan\u00e7ado, originalmente, em 2016, pela Drakkar, uma editora independente, com uma tiragem de 2.000 exemplares, todos vendidos em cinco meses, o que levou o escritor a ser mencionado pelo grupo &#8220;Reino dos Livros&#8221;, de uma rede social.<\/p>\n<p>Mais tarde, &#8220;O monge guerreiro&#8221; \u00e9 reeditado, em 2018, pela Cavaleiro Negro, de S\u00e3o Paulo. O livro tamb\u00e9m ganhou tradu\u00e7\u00e3o para o ingl\u00eas e para o italiano, sendo editado, por l\u00e1, pela Newton Compton. Ao todo, s\u00e3o milhares de exemplares, o que faz do autor um &#8220;best-seller&#8221; incontest\u00e1vel, um sucesso internacional e um orgulho para o Esp\u00edrito Santo, num feito rar\u00edssimo em nossa literatura, sobretudo se se pensar em um autor que continua residindo aqui no Estado!<\/p>\n<p>Ainda pela Cavaleiro Negro, no mesmo ano, sai o infantojuvenil &#8220;O reino dos morcegos&#8221;. A f\u00f3rmula \u00e9 parecida: uma aventura na Idade M\u00e9dia. A hist\u00f3ria se deu ap\u00f3s uma viagem do autor com sua esposa para a cidade medieval de Carcassone, na Fran\u00e7a. A trama gira em torno de Fred, o &#8220;Morceguito&#8221;, um simp\u00e1tico morceguinho adolescente que nasce com uma caracter\u00edstica inusitada: ele \u00e9 albino! Sua miss\u00e3o \u00e9 ajudar o pr\u00edncipe Frank e a princesa Yasmin a salvar o reino do pai destes, o Rei Dillon, das garras do Rei Negro e sua ajudante, a bruxa Maldiva.<\/p>\n<p>\u201cO Farol e a Tempestade\u201d foi publicado pela \u201cNovo Conceito\u201d, tamb\u00e9m de S\u00e3o Paulo. Trata-se de um volume de quase 300 p\u00e1ginas, dotado de um pr\u00f3logo e 47 cap\u00edtulos, cada qual de quatro a cinco p\u00e1ginas cada. A hist\u00f3ria gira em torno de Sam e Anne. O rapaz mora em uma ilha fict\u00edcia, no Caribe, de nome Farethon, em um farol. Em um dia de tempestade, resolvido a atentar contra si pr\u00f3prio, Sam testemunha um acidente de avi\u00e3o, pr\u00f3ximo de onde est\u00e1, e, num ato de bravura, se precipita ao mar, conseguindo salvar Anne. A paix\u00e3o entre os dois \u00e9 imediata, com direto a todas as reviravoltas de uma trama cinematogr\u00e1fica. Segundo o autor, a ideia era que o leitor \u201cvisse\u201d a hist\u00f3ria, no que ele lan\u00e7a m\u00e3o de artif\u00edcios muito semelhantes ao de um roteiro de um filme.<\/p>\n<p>Redundante, a esta altura, dizer que essa linguagem permeia a prosa de Felippe. Seus livros contam com uma estrutura semelhante: exceto \u201cO Reino dos Morcegos\u201d, os outros dois s\u00e3o dotados de um pr\u00f3logo, preparando o leitor para o que ser\u00e1 descortinado. Pode-se afirmar que o primeiro cap\u00edtulo do infantojunvenil faz as vezes de um texto introdut\u00f3rio, tamb\u00e9m. Os cap\u00edtulos s\u00e3o curtos, as frases, diretas e \u00e1geis, o que facilita a leitura e at\u00e9 as pausas. Chamo aten\u00e7\u00e3o a esta passagem \u201cO Monge Guerreiro\u201d<a name=\"_ftnref1\"><\/a>[1]:<\/p>\n<p>\u201cDe olhos azuis e cabelos longos, o jovem monarca veste apenas uma humilde e esfarrapada t\u00fanica de penitente. Um leve tecido encobre suas m\u00e3os para que n\u00e3o toquem as santas rel\u00edquias. O poderoso rei caminha descal\u00e7o como se fosse o mais pobre dos homens, carregando com apre\u00e7o e devo\u00e7\u00e3o a Santa Coroa e a Lan\u00e7a de Longinus em um cortejo triunfal pelas ruas de pedra\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 sabido que o advento do cinema teve, em seus prim\u00f3rdios, o teatro como paradigma. Se partirmos de um ponto de vista aristot\u00e9lico, que classificava os g\u00eaneros em \u00e9pico, l\u00edrico e dram\u00e1tico \u2013 e se levarmos em considera\u00e7\u00e3o o texto teatral divorciado da adapta\u00e7\u00e3o, podemos afirmar que teatro \u00e9 literatura. H\u00e1, no entanto, controv\u00e9rsias quando ao roteiro. Os manuais do assunto s\u00e3o un\u00e2nimes em afirmar que roteiro \u00e9 roteiro, literatura \u00e9 literatura, como, por exemplo, ensina o realizador capixaba Jovany Sales Rey, em seu \u201cO papel do cinema: guia pr\u00e1tico do roteiro cinematogr\u00e1fico\u201d<a name=\"_ftnref2\"><\/a>[2]:<\/p>\n<p>\u201cTeatro \u00e9 a arte do di\u00e1logo, ao contr\u00e1rio do cinema, que \u00e9 a arte da imagem (&#8230;). Quanto \u00e0 literatura, quando se escreve um conto ou um romance, a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 induzir o leitor \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, for\u00e7ando-o a criar suas pr\u00f3prias imagens mentais para embarcar na hist\u00f3ria, ao passo que o roteiro \u00e9 um manual de instru\u00e7\u00f5es direcionado para uma equipe de trabalhadores especializados (diretor, t\u00e9cnicos e atores), que o usar\u00e3o para construir imagens e entreg\u00e1-las prontas para o espectador consumir. (&#8230;) Objetividade, clareza e encadeamento l\u00f3gico s\u00e3o os requisitos a serem perseguidos\u201d.<\/p>\n<p>De fato, na constru\u00e7\u00e3o de um roteiro, seriam dispens\u00e1veis figuras de linguagem t\u00e3o caras \u00e0 literatura, como hip\u00e9rboles, met\u00e1foras, sinon\u00edmias, onomatopeias&#8230; Mas, e quando a literatura resolve abra\u00e7ar a objetividade, clareza e encadeamento l\u00f3gico do roteiro, a fim de tornar a experi\u00eancia da leitura ainda mais imag\u00e9tica? Trago, aqui, um excerto de \u201cO Farol e a Tempestade\u201d, para confirmar, realmente, como o leitor \u201cv\u00ea\u201d a hist\u00f3ria<a name=\"_ftnref3\"><\/a>[3]:<\/p>\n<p>\u201c\u2018O Senhor tem uma \u00faltima chance de provar que estou errado. Fale agora ou cale-se para sempre&#8230;\u2019<\/p>\n<p>Suas \u00faltimas palavras ecoadas na altura impiedosa do farol fagulham em sua mente t\u00e3o v\u00edvidas quanto o acelerar das batidas de seu cora\u00e7\u00e3o. Rapidamente, Sam retira a corda do pesco\u00e7o e salta de volta ao c\u00f4modo, arrancando um ranger do piso de madeira. Pega um bin\u00f3culo e uma lanterna da velha prateleira e, sob o olhar assustado de Charles \u2013 que se aquece ao p\u00e9 da lareira &#8211; , inicia uma descida abrupta pelos cerca de duzentos degraus da escada em espiral. Iluminados pelo facho de luz da lanterna, seus passos firmes fazem trepidar a velha estrutura de ferro.\u201d<\/p>\n<p>A versatilidade da linguagem de Romulo Felippe \u00e9 tanta que ele, dentro de sua proposta, consegue at\u00e9 mimetizar os falares dos adolescentes, como nesta passagem, a primeira de \u201cO Reino dos Morcegos<a name=\"_ftnref4\"><\/a>[4]\u201d:<\/p>\n<p>\u201cMeu nome \u00e9 Fred. Frederico, na verdade. \u00c9 que s\u00f3 a minha m\u00e3e me chama dessa forma \u2013 principalmente quando est\u00e1 zangada comigo. \u2018Frederico, n\u00e3o fa\u00e7a isso, menino!\u2019, costuma gritar. Logo que nasci, meu pai tratou de criar esse apelido, Fred. Mas meu velho n\u00e3o est\u00e1 mais aqui entre n\u00f3s, e isso \u00e9 uma longa hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma paradoxal tend\u00eancia em n\u00e3o se valorizar o infantojuvenil nos estudos liter\u00e1rios, ao mesmo tempo em que o paradid\u00e1tico \u00e9 adotado em v\u00e1rias escolas, muitas vezes, at\u00e9, adquirido em editais, tornando-se o g\u00eanero mais vendido. Romulo, ao se debru\u00e7ar sobre a escrita para \u201ccrian\u00e7as\u201d, demonstra essa sensibilidade, qui\u00e7\u00e1 resgatando o menino de Cachoeiro, que morava perto dos Bragas. Em uma atitude coerente com o texto, ele convida a jovem Sarah Cohen, tamb\u00e9m escritora, que, aos 12 anos de idade, l\u00ea e prefacia o livro, vaticinando<a name=\"_ftnref5\"><\/a>[5]:<\/p>\n<p>\u201cPara arrematar minha ideia, posso dizer que esta hist\u00f3ria vai levar voc\u00ea a uma volta no tempo e a uma emocionante aventura pelo mundo dos morcegos. E posso garantir: seu olhar sobre esses pequenos seres nunca mais ser\u00e1 o mesmo&#8230;\u201d \u00a0<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Em v\u00e1rias entrevistas, facilmente encontr\u00e1veis na internet, Romulo Felippe sempre se autodenomina \u201cautor de fantasia\u201d. Ouso, no entanto, discordar da conota\u00e7\u00e3o dada pelo autor ao sintagma, uma vez que, a rigor, toda literatura \u00e9 fantasia. \u00c9 imanente ao texto liter\u00e1rio a linguagem conotativa, a hipertextualidade e a verossimilhan\u00e7a, como tal, um pacto subjacente de verdade que encontra contorno nos limites do texto. \u00c9 Massaud Mois\u00e9s, na obra \u201cA cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria: prosa\u201d<a name=\"_ftnref6\"><\/a>[6], quem afirma:<\/p>\n<p>\u201cDe que resulta esse poder demi\u00fargico do romancista? (&#8230;) o ele utilizar com exclusividade e com franca liberdade os recursos da prosa de fic\u00e7\u00e3o. O romancista n\u00e3o sofre (ou n\u00e3o deve sofrer) coa\u00e7\u00e3o de qualquer esp\u00e9cie, salvo aquela imposta pela pr\u00f3pria obra que pretende criar.\u201d<\/p>\n<p>Antonio Soares Amora, em sua \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o \u00e0 Teoria Liter\u00e1ria\u201d, assevera:<\/p>\n<p>\u201cDe tudo isto temos que concluir que um escritor n\u00e3o \u00e9 apenas um homem que pensa e sente de modo diferente do comum dos homens; \u00e9 tamb\u00e9m um \u2018artista\u2019, que se empenha, tecnicamente, na express\u00e3o estrutural de sua obra, para que a estrutura obtida seja a mais adequada ao conte\u00fado que se deseja expressar e a mais eficaz para levar o leitor a compreender e sentir sua obra\u201d.<\/p>\n<p>Desta forma, Romulo Felippe n\u00e3o \u00e9 um \u201cescritor de fantasia\u201d: ele \u00e9 um \u201cescritor\u201d. Entendo a literatura como algo un\u00edvoco, por\u00e9m, o Humano tem necessidade de classifica\u00e7\u00f5es e r\u00f3tulos e este foi cunhado para denominar uma gama de autoras e autores alijados da cr\u00edtica liter\u00e1ria. Esta \u201cfantasia\u201d, no entanto, n\u00e3o tem a ver com a \u201cLiteratura Fant\u00e1stica\u201d latino-americana, dos anos 1950\/60, sobretudo, com expoentes como Borges, Cort\u00e1zar, Casares, M\u00e1rquez e, em certo modo, no Brasil, Dias Gomes e Jorge Amado que, em minha opini\u00e3o, n\u00e3o se encaixaria, exatamente, neste padr\u00e3o.<\/p>\n<p>Estes \u201cautores de fantasia\u201d inspiram-se em outro c\u00e2none, de tradi\u00e7\u00e3o angl\u00f3fona, que tem como expoentes autores como Stephen King, J. R. R. Tolkien, C. S. Lewis e J. K. Rowling, por exemplo. Muitos s\u00e3o os escritores brasileiros que escrevem neste estilo, tais como Andr\u00e9 Vianco, Eduardo Spohr, Carolina Mu\u00f1oz, Raphael Dracon, Eliana Louzada e, claro, Romulo Felippe. Suas hist\u00f3rias, de tramas f\u00e9rteis, complexas, arrebatam uma leva enorme de leitores, em sua maioria jovens, como nunca se v\u00ea em nosso pa\u00eds. S\u00e3o jovens que t\u00eam nesses livros a porta de entrada para o exerc\u00edcio da literatura e que podem, inspirados por eles, criar, tamb\u00e9m, suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Desta feita, eu me comprazo em ver a Academia Esp\u00edrito-santense de Letras acolher um autor do quilate de Romulo Felippe, seja por sua trajet\u00f3ria, meticulosamente calculada, muito bem empreendida, seja pelas suas obras. Romulo fica conhecido como \u201co acad\u00eamico do Centen\u00e1rio\u201d, pois quiseram as Musas que o autor tomasse posse logo ap\u00f3s o anivers\u00e1rio de 100 anos da institui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 para qualquer casa, principalmente quando se fala de Cultura em um pa\u00eds que anda, cada vez mais, dando provas de orgulho \u00e0 ignor\u00e2ncia! Felippe foi eleito durante a pandemia, em uma elei\u00e7\u00e3o totalmente virtual, a primeira da nossa hist\u00f3ria. A Academia Esp\u00edrito-santense de Letras n\u00e3o \u00e9 uma anci\u00e3 esclerosada, ao contr\u00e1rio, \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o que conseguiu manter a tradi\u00e7\u00e3o, modernizando-se. Acolher um autor que traz tanta novidade, que chega com o f\u00f4lego do contempor\u00e2neo, de um novo paradigma, de uma nova tradi\u00e7\u00e3o, mas que mant\u00e9m o amor e o compromisso com as letras como princ\u00edpio, nos enche de j\u00fabilo e nos faz confirmar a certeza da nossa escolha.<\/p>\n<p>Romulo Felippe: quiseram as mesmas Musas que, nesta noite, eu fosse o arauto da Academia e \u00e9 em nome dela que eu lhe digo: Seja bem-vindo \u00e0 Academia Esp\u00edrito-santense de Letras! Seja bem-vindo \u00e0 imortalidade!<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Anaximandro Oliveira Santos Amorim, advogado, professor e escritor<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Membro da Academia Esp\u00edrito-santense de Letras (cadeira 40)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Mestrando em Estudos Liter\u00e1rios \u2013 UFES<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ref\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>AMORA, Ant\u00f4nio Soares. <strong>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Teoria da Literatura<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 2006.<\/p>\n<p>FELIPPE, Romulo. <strong>Monge Guerreiro: A coroa. A lan\u00e7a. O drag\u00e3o<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Cavaleiro Negro Editora, 2018.<\/p>\n<p>_______________. <strong>O Farol e a Tempestade: e se a vida lhe desse uma segunda chance?<\/strong>. Ribeir\u00e3o Preto, SP: Novo Conceito Editora, 2019.<\/p>\n<p>_______________. <strong>Reino dos Morcegos<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Cavaleiro Negro Editora, 2018.<\/p>\n<p>MOIS\u00c9S, Massaud. <strong>A cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria: prosa<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Melhoramentos, 1979.<\/p>\n<p>REY, Jovany Sales. <strong>O papel do cinema: guia pr\u00e1tico do roteiro cinematogr\u00e1fico<\/strong>. Vit\u00f3ria: JEP, 2005.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DISCURSO DE BOAS-VINDAS AO ACAD\u00caMICO ROMULO FELIPPE Anaximandro Oliveira Santos Amorim, advogado, professor e escritor Existe, na rua 25 de mar\u00e7o, na cidade de Cachoeiro de Itapemirim, sul do Esp\u00edrito Santo, um belo im\u00f3vel, de n\u00famero 166. Uma casa em estilo ecl\u00e9tico, sem afastamento, pintada na cor verde, cuja entrada se faz por um p\u00f3rtico. 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