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Entrevistas

“Que o leitor faça uma imersão ancorada pela historicidade”

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O biógrafo Romulo Felippe fala sobre o lançamento da biografia ‘Os mares da Vitória’, obra que celebra as oito décadas do Iate Clube do Espírito Santo. Com obras publicadas no Brasil, Europa e Estados Unidos, o escritor capixaba é autor de 27 livros, sendo 15 biografias. Com 40 anos de jornalismo, trabalhou em reportagens especiais nos quatro cantos do mundo. O escritor e biógrafo é membro da secular Academia Espírito-santense de Letras e do centenário Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo.

Como o livro está organizado, de forma cronológica, temática, mista?

Para a biografia dos 80 anos do Iate Clube do Espírito Santo optei por trabalhar com capítulos que vão desde sua fundação, passando pelos principais fatos históricos e por uma série de depoimentos colhidos sem, entretanto, preocupar-me com a cronologia dos fatos. A ideia é que o leitor faça uma imersão ancorada pela historicidade, mas que funde passado, presente e futuro ao longo de suas páginas.

Quais são os principais capítulos ou eixos narrativos?

Desde o seu nascimento, em 1946, aos dias de hoje uma série de Comodoros passaram pela entidade náutica. E muitos deles estão vivíssimos, denotando a ‘história viva’ que movimenta as marinas do Ices. Com isso temos capítulos que envolvem administradores, pescarias históricas e o mar de ações que o tornam grandioso em nosso litorâneo Espírito Santo.

Quais os personagens mais icônicos e importantes foram entrevistados pra contar essa história? personagens ou figuras que se destacam ao longo da narrativa como pilares da história do clube

Quando se ‘pesca’ a história de uma entidade (no bom jargão de um clube voltado para o mar) trazemos uma série de depoimentos vigorosos. Reminiscências de outros tempos com a força do presente. Temos Comodoros e associados que ali estão há mais de quatro décadas. Assim como a determinação do atual, o Comodoro Fabiano Pereira, que conseguiu concluir a tão sonhada Marina Norte. Cada qual ergueu um importante degrau para um clube que, apesar de privado, vai muito além de seus muros e ganha o coração da sociedade capixaba. Que alcança a periferia com suas ações sociais.

Quais episódios históricos o livro destaca como mais marcantes na trajetória do clube? Além do recorde marlim azul de 92.

Os recordes são devidamente valorizados na biografia. Afinal, foram eles que levaram o nome da instituição para além-mar, literalmente. Mas o que mais me chamou a atenção, no processo de apuração do livro, é que o Iate Clube nasceu da paixão dos locais com a chegada dos ingleses que vieram trabalhar, entre outras áreas, no ramo de energia elétrica. O amor desses dois povos, entre chás e caçadas, culminou no surgimento das primeiras competições de barco a vela e da necessidade de se criar um clube para organizar os encontros e as competições (e a paixão em comum). Isso em um Estado com uma extrema vocação náutica, iniciada com os povos indígenas, passando pelo primeiro Donatário Vasco Fernandes Coutinho e avançando ao longo de cinco séculos. 

O livro traz registros inéditos, como fotos, documentos ou depoimentos que nunca foram publicados antes?

A biografia ‘Os mares da Vitória’ é uma ode à capital do Espírito Santo e seu enorme coração marítimo. Com rica iconografia, o livro traz belíssimas fotografias de Vitória, das grandes competições de pesca e vela, de seus personagens e registros históricos de tirar o fôlego. Será uma imersão sem igual, garanto. 

O livro aborda apenas o lado esportivo ou também a dimensão social, beneficente e institucional do clube?

O Iate Clube do Espírito Santo foi forjado, ao longo dessas oito décadas, com a missão de abraçar o povo capixaba. Vejamos, por exemplo, a escolinha de velas na comunidade de São Pedro – um centro de novos e futuros campeões (e de cidadãos mais preparados para o mundo). Temos os jantares beneficentes. E uma série de ações sociais em prol do nosso Estado. Uma biografia, por fim, feita através do amor pelos mares, mas acima de tudo com um olhar humano que habita desde as suas primeiras atas.

Há algum período da história do clube que o livro aprofunda com mais destaque?

Além das primeiras décadas, e das primeiras regatas – com o povo se espreitando na hoje Curva da Jurema em busca dos melhores ângulos – creio que as duas últimas décadas ganham um maior aprofundamento. Foi a partir desses anos mais recentes que o Ices foi alçado dentre os melhores do país. Uma estrutura fundamental para os navegadores que cortam a costa brasileira e buscam apoio em nossas águas capixabas.

Em uma frase, como você descreveria o livro para quem ainda não o conhece?

O livro dos 80 anos do Iate Clube do Espírito Santo nos permite conhecer, ainda mais a fundo, um Estado banhado pelo Atlântico, que interliga a nossa capital com todos os portos do mundo e que forja recordistas de pesca oceânicas e de velejadores. Para o capixaba a obra amplia o nosso olhar interno, aquele que nos deixa boquiabertos perante a beleza da nossa natureza; para os de fora ficará a sensação de descobrimento e de encantamento por conta das nossas potencialidades marítimas. Em lugar nenhum do tempo há competições de velas e de pesca dos gigantes marinhos tão próximos e acessíveis.

Qual é a frase ou trecho que melhor sintetiza o espírito do que foi escrito? Se puder colocar uma citação direta de algum trecho do livro seria bom pra usarmos na divulgação.

“Na tardinha de 4 de agosto de 1946, enquanto as primeiras turbinas elétricas giravam no Estado em ritmo experimental, ergueu-se a flâmula do Iate Clube do Espírito Santo. Uma cisão perfeita entre a faísca da industrialização e o sopro dos ventos costeiros. O que começou como extensão do trabalho desses ingleses, que era iluminar a cidade, acabou iluminando também o imaginário coletivo, instaurando na baía uma tradição náutica que, oito décadas depois, ainda resplandece sob o mesmo sopro de modernidade que trouxe a energia às ruas recém-clareadas de Vitória”. (pág. 19, capítulo 1 – A força dos mastros e dos anzóis).

 Qual foi o maior desafio de recontar 80 anos de história de uma instituição tão presente na vida social capixaba?

Todo biógrafo carrega nos ombros a responsabilidade em colocar no papel a essência de uma grande história, unindo o rigor dos acontecimentos de uma forma que permita ao leitor navegar pelo enredo. Deve-se ser fiel aos fatos sem perder a sensibilidade que exige a boa literatura. Assim, o maior desafio foi escrever uma jornada de oito décadas que, como um excelente barco a vela, segue em movimento, dia após dia, rumo ao centenário.

 Há algum episódio ou período da história do clube que te surpreendeu durante a pesquisa, algo que você não esperava encontrar?

Creio que me chamou bastante a atenção o fato de os pescadores capixabas terem sido os precursores, lá nos anos 60, na pesca dos marlins azuis. Esses gigantes que habitam as nossas águas. Toda essa batalha nas águas me faz lembrar de Hemingway ao capturar o seu monstro oceânico: “nada maior, mais belo, mais calmo ou mais nobre do que você, irmão”.

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