Revelações históricas marcaram lançamento do livro ‘A Força e a Luz
Na noite em que o Centro de Ciências e Planetário de Colatina abriu suas portas para o lançamento da biografia “Henrique Coutinho – A Força e a Luz”, o auditório revelou-se pequeno diante da expectativa que tomou conta da cidade. Cento e cinquenta pessoas ocuparam cada assento disponível. Autoridades dos três Poderes, acadêmicos, empresários, estudantes e leitores comuns formaram um público atento — daqueles que não comparecem apenas para prestigiar, mas para ouvir História.
A palestra conduzida por Romulo Felippe não se limitou a apresentar um livro. Reconstruiu cinco séculos de linhagem e poder, iniciando no 23 de maio de 1535, quando Vasco Fernandes Coutinho desembarcou na Prainha, em Vila Velha, tornando-se o primeiro donatário da Capitania do Espírito Santo. A genealogia, tratada com rigor e prudência, serviu como fio condutor para ligar passado e presente — do fundador colonial ao empresário que iluminaria o Noroeste capixaba.
Ao avançar pelas gerações, o autor destacou figuras como Henrique da Silva Coutinho, presidente do Estado entre 1904 e 1908, responsável por reorganizar finanças públicas em meio a um cenário deficitário, impulsionar investimentos em educação e consolidar estruturas logísticas que marcaram o Espírito Santo do início do século XX. O auditório acompanhou, em silêncio absoluto, a narrativa sobre a privatização estratégica da Estrada de Ferro Sul, o fortalecimento do Porto de Vitória e o encontro institucional com o presidente Afonso Pena.
Mas foi ao chegar ao século XX que a atmosfera ganhou contornos emocionais. Henrique Nunes Coutinho, nascido em 1904, surgia na fala do biógrafo como o homem que transformou engenho em energia. A pequena usina doméstica construída em 1926, movida a roda d’água, deu origem à expansão que culminaria na distribuição regular de eletricidade para Colatina a partir de 1946. Em plena Segunda Guerra Mundial, enfrentando restrições materiais, ergueu redes elétricas onde antes havia apenas a iluminação precária apelidada de “vaga-lume”.
A narrativa alcançou seu ponto de convergência ao recordar a gestão municipal de 1948 a 1951. O prefeito Henrique Nunes Coutinho recebeu o presidente Eurico Gaspar Dutra diante de uma multidão estimada em 12 mil pessoas e inaugurou obras estruturantes, entre elas o Hospital Silvio Avidos e o sistema de água e esgoto da cidade. A plateia reagiu com aplausos espontâneos ao ouvir que o legado do empresário ultrapassa hoje 126 mil lares e empresas atendidos.
O evento contou com a presença do prefeito de Colatina, Enzo Vasconcellos, do presidente da Academia Espírito-Santense de Letras, Jonas Reis, do vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, João Gualberto, e dos acadêmicos Fernando Achiamé e Adilson Villaça, dentre outros. Cada intervenção reforçou a importância da obra como registro documental e como afirmação de identidade regional.
Ao final, entre aplausos e filas organizadas para autógrafos, consolidou-se a percepção de que o lançamento não foi apenas um ato literário. Tratou-se de uma reafirmação de memória coletiva. Uma noite em que passado e presente dialogaram sob a cúpula do planetário, iluminando, simbolicamente, a mesma terra que Henrique Nunes Coutinho ajudou a tirar da penumbra. A palestra foi encerrada com uma metáfora simples e poderosa: pode-se apagar um interruptor, mas a luz do visionário permanece. A plateia deixou o auditório com a sensação de ter participado de um capítulo que já nasce histórico.